Análise
por EDULOG
22 de janeiro de 2026 |
Para assinalar o Dia Internacional da Educação, como descreveria o estado atual da educação a nível global? Estamos num momento de progresso, estagnação ou retrocesso?
A resposta não é linear, porque os diferentes indicadores não evoluem todos na mesma direção. Desde 2015, a percentagem de crianças e jovens fora da escola estagnou nos 17%. Isto é particularmente preocupante porque, nos países mais pobres, a população continua a crescer, o que significa que, em termos absolutos, o número de crianças fora da escola aumentou desde então.
Ao mesmo tempo, há sinais de progresso, ainda que lento. A percentagem de alunos que concluem cada ciclo de ensino, sobretudo no ensino secundário, tem aumentado de forma gradual – cerca de cinco a sete pontos percentuais desde 2015. Isto sugere que muitos sistemas educativos se tornaram mais eficientes. Após décadas de subinvestimento nos anos 1980 e 1990, seguidas de uma forte expansão do acesso depois de 2000, os sistemas tiveram dificuldade em absorver o grande afluxo de alunos. Isso traduziu-se em elevadas taxas de retenção e abandono. Hoje, esses sistemas parecem estar a recuperar alguma estabilidade: mais alunos entram, permanecem e concluem os seus percursos.
O grande ponto de interrogação continua a ser a aprendizagem. Nos países mais ricos, os dados são particularmente preocupantes: desde 2010, segundo os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), a percentagem de jovens que não atinge o nível mínimo de proficiência em leitura tem aumentado a um ritmo sem precedentes – cerca de um ponto percentual por ano. Esta tendência começou bem antes da pandemia, embora a COVID-19 tenha agravado a situação. Nos países de baixo rendimento, a evidência é escassa, mas sugere melhorias muito lentas, partindo de níveis extremamente baixos.
Do ponto de vista do Global Education Monitoring Report, quais são hoje as principais tendências globais que estão a moldar os sistemas educativos?
Há várias tendências em simultâneo, mas algumas destacam-se. A tecnologia é uma delas, não tanto pelo seu impacto direto nos sistemas educativos, mas sobretudo pelos seus efeitos indiretos sobre a forma como os jovens aprendem, se informam e interagem. Ao mesmo tempo, oferece oportunidades muito significativas, por exemplo na inclusão de pessoas com deficiência, permitindo uma participação social antes impensável.
A demografia é outra tendência central, especialmente nos países do Norte Global, onde o número de crianças e jovens em idade escolar tem vindo a diminuir, ao mesmo tempo que a diversidade aumenta, impulsionada pela migração. Os sistemas educativos tornaram-se mais representativos da sociedade como um todo, o que cria oportunidades, mas também desafios importantes em termos de inclusão. Em muitos países, ainda há grande dificuldade em definir o que significa, na prática, um sistema verdadeiramente inclusivo.
Por fim, há uma tendência preocupante: a instrumentalização da educação para fins políticos. Em vez de ser usada como uma força de inclusão e abertura, a educação é, em alguns contextos, utilizada para promover visões fechadas do mundo, acentuando divisões sociais. A relevância da educação para o mundo do trabalho continua também a ser uma preocupação, num contexto em que as competências exigidas mudam rapidamente e são cada vez mais imprevisíveis.
De que forma desafios globais como a instabilidade geopolítica, as pressões económicas ou as alterações climáticas estão a afetar a educação?
Curiosamente, estes desafios não afetam a educação tanto de forma direta, mas levantam uma questão mais profunda: até que ponto os sistemas educativos estão realmente preparados para ajudar os cidadãos, sobretudo os mais jovens, a compreender e a enfrentar estes problemas?
É importante reconhecer que a educação reflete a sociedade. Não podemos exigir que os sistemas educativos avancem mais depressa do que a própria sociedade está disposta a avançar. Ainda assim, o contributo da educação para a mudança de atitudes e comportamentos, por exemplo no que diz respeito ao consumo sustentável, à proteção da biodiversidade ou à convivência pacífica, continua a ser muito limitado e, muitas vezes, superficial.
Outro grande desafio prende-se com a desinformação. Num mundo inundado de informação, parte dela falsa, a capacidade dos cidadãos para distinguir fontes credíveis tornou-se essencial para a saúde das democracias. Aqui, a tentação é apostar excessivamente em competências digitais técnicas, quando a evidência mostra que são as competências fundamentais – a leitura, o pensamento crítico – que melhor preparam os jovens para navegar este ambiente complexo.
A tecnologia e a inteligência artificial são frequentemente apresentadas como soluções para a educação. Até que ponto esta expectativa é realista? Que riscos devem ser considerados?
Há uma tendência recorrente para encarar cada nova tecnologia como uma solução milagrosa. A inteligência artificial não foge a essa lógica. A experiência mostra que é prudente evitar entusiasmos excessivos, até porque estão sempre a aparecer tecnologias novas. Embora a IA tenha potencial para alterar algumas práticas educativas, como a forma como se atribuem trabalhos ou se acede à informação, não deve ser vista como uma panaceia.
Paradoxalmente, um dos efeitos mais interessantes da inteligência artificial pode ser indireto: obrigar professores e sistemas educativos a abandonar métodos rígidos e ultrapassados e a recentrar-se no que realmente importa para o desenvolvimento intelectual dos alunos. Esse processo levará tempo, mas pode ser positivo.
Ao mesmo tempo, há indícios de que a disseminação generalizada da tecnologia, fora da escola, está associada ao declínio dos resultados em leitura, possivelmente devido à fragmentação da atenção e às mudanças na forma como os jovens consomem informação. Embora seja difícil estabelecer relações causais claras, o impacto já é suficientemente visível para levar muitos sistemas educativos a ponderar restrições ao uso de dispositivos, na tentativa de proteger a concentração e o foco.
Muitos países alargaram o acesso à educação, mas a qualidade continua a ser uma preocupação. O que significa, na prática, falar de “educação de qualidade” hoje??
As definições de qualidade são necessariamente variadas, mas nenhuma pode ignorar a relevância. A questão central é: para que serve aquilo que se aprende? A qualidade da educação não pode ser avaliada apenas por indicadores quantitativos ou resultados em disciplinas básicas, embora estes sejam importantes.
O Global Education Monitoring Report tem vindo a refletir sobre o futuro da educação. Um dos grandes desafios é perceber se os conhecimentos e competências adquiridos estão a ser mobilizados para responder aos grandes problemas do nosso tempo: alterações climáticas, convivência na diversidade, paz, cidadania digital. Em muitos sistemas educativos, estes temas continuam a ser tratados de forma marginal ou superficial.
Durante anos, o foco esteve na medição e na melhoria dos resultados básicos, e hoje sabemos mais sobre como melhorar esses resultados. A grande questão que permanece é se esse progresso está a ser colocado ao serviço de um propósito mais amplo. Sem uma visão clara de relevância, a própria ideia de qualidade fica incompleta.
A escassez de professores e o envelhecimento da profissão são temas recorrentes. Quão crítico é este problema a nível global?
O quadro é complexo. Muitos inquéritos mostram que os professores continuam, em geral, orgulhosos da sua profissão e não abandonam o ensino em massa, como por vezes se sugere. O mesmo se aplica aos diretores escolares, apesar das exigências crescentes sobre o seu tempo e competências.
Ainda assim, a profissão tornou-se menos atrativa do que no passado. As pressões aumentaram, as expectativas das famílias são maiores e nem sempre construtivas, e a complexidade do trabalho cresceu significativamente. A remuneração continua a ser um problema em vários países, mas não é o único fator. O reconhecimento social, a estabilidade, as condições de trabalho e o sentido de propósito são igualmente determinantes.
Se os países querem atrair pessoas altamente motivadas e comprometidas, precisam de tornar a profissão mais valorizada, não apenas em termos salariais, mas também na forma como a sociedade e os governos se relacionam com a educação.
Olhando para a próxima década, quais são os maiores riscos e as oportunidades mais promissoras para os sistemas educativos?
Um dos maiores riscos é a perda de prestígio da educação enquanto processo social e enquanto escolha profissional. A polarização política e social reflete-se inevitavelmente na escola, tornando mais difícil construir consensos e um sentido partilhado de missão.
Ao mesmo tempo, há razões para algum otimismo. Apesar das distrações e da redução do espaço de atenção, o mundo continua a produzir avanços científicos e intelectuais extraordinários. A capacidade humana de criar conhecimento permanece intacta e pode funcionar como um farol que motive sociedades a investir na educação e a garantir que todos os jovens têm oportunidade de desenvolver o seu potencial.
A grande oportunidade está em conciliar estas duas dimensões: reconhecer as dificuldades concretas do quotidiano educativo, sem perder de vista a missão transformadora da educação. É isso que continua a atrair muitos professores à profissão e que pode sustentar uma visão mais esperançosa para o futuro.
Há alguma ideia ou perspetiva que considere importante acrescentar e que não tenha sido ainda abordada?
Do ponto de vista do Global Education Monitoring Report, é importante reconhecer os limites do próprio exercício de monitorização. O trabalho do relatório assenta em indicadores e dados comparáveis, mas estes nem sempre conseguem captar aquilo que é mais essencial nos sistemas educativos. A educação é um processo profundamente humano, e nem tudo o que importa é facilmente mensurável.
Ao longo dos anos, as agendas internacionais tiveram um papel relevante ao criar enquadramentos comuns e ao mobilizar atenção política para a educação. No entanto, essas agendas também podem tornar-se problemáticas se impuserem uma visão uniforme a realidades muito distintas. É que os países partem de pontos diferentes, enfrentam desafios diferentes e respondem perante sociedades diferentes.
Nesse sentido, mais do que metas universais rígidas, é importante pensar num quadro global orientador, suficientemente flexível para permitir que cada país defina os seus próprios objetivos, de acordo com o que é exequível e socialmente relevante. A ausência de metas claras é um risco, mas metas irrealistas podem gerar desmotivação e afastamento. Precisamos de ambição, mas também de humildade. Um enquadramento global pode ajudar a orientar e a promover a partilha de experiências, mas não deve funcionar como uma camisa de força. Para que haja verdadeiro compromisso, os países precisam de se reconhecer nas metas que assumem – e de sentir que essas metas fazem sentido para as suas próprias realidades.